Ubuntu! Brasil e África do Sul
Que tal olharmos um pouco mais a Sul?
A África do Sul apresenta-se como caminho natural da reaproximação diplomática brasileira com a África. Por este motivo, a visita do Presidente Cyril Ramaphosa ao Brasil reveste-se de tanta importância.
A ideia da visita é principalmente fortalecer as relações comerciais bilaterais, que ainda não refletem o grau de Parceria Estratégica entre as duas nações. A África do Sul é o único país africano, ao lado de Angola, com o qual o Brasil mantém Parceria Estratégica. Em 2025, a corrente comercial ficou em US$ 2,3 bilhões: nós exportamos US$ 1,5 bilhões (27% carnes de aves e miudezas – 81% das importações sul-africanas de frango, 15% zinco, 8,1% veículos rodoviários, etc.) e importamos US$ 804,8 bilhões (84,8% de prata, platina e metais do grupo da platina).
Há muito espaço para crescer ainda.
Para o Brasil, a África do Sul pode ser estratégica como porta de entrada para o continente africano, que tem uma população de 1,6 bilhões de pessoas, um PIB nominal de cerca de US$ 3 trilhões e vem avançando na implementação do Acordo de Livre Comércio Continental Africano (AfCFTA). Seria também a principal porta de entrada para a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), com população de 380 milhões de pessoas e PIB nominal de mais de US$ 720 bilhões, dos quais US$ 410 bilhões são da África do Sul, com seus 62 milhões de habitantes, o que representa em torno de 55% do PIB da SADC. Nesse contexto, uma eventual ampliação do Acordo de Preferência Comercial entre o MERCOSUL e a União Aduaneira da África Austral (MERCOSUL-SACU) poderia beneficiar ainda mais as trocas comerciais.
A África do Sul é, vale lembrar, a principal e mais industrializada economia africana (recuperou o título da Nigéria), com alto grau de “ease of doing business” dentro do continente africano, um sistema bancário avançado (inclusive com uma filial do Standard Bank em São Paulo) e tem a maior bolsa de valores da África, a de Joanesburgo. Dentre os principais produtos que importamos da África do Sul, está a platina, da qual os sul-africanos são os maiores produtores disparados, dominando em torno de 75% do mercado mundial, seguidos em um tímido segundo lugar pela Rússia. A produção mineral sul-africana é historicamente massiva, incluindo ainda ouro, carvão, minério de ferro e manganês.
Vale curiosidade ao leitor e à leitora persistentes até aqui: o iFood pertence a um grupo sul-africano, Prosus/Naspers, cujo CEO é o brasileiro Fabricio Bloisi, e a “Airports Company South Africa” (ACSA) controla o terminal 3 do aeroporto de Guarulhos, por exemplo. Estamos mais perto do que imaginamos, inclusive porque há voos diretos entre São Paulo e Joanesburgo ou Cidade do Cabo. Vale a pena a viagem! Fora a presença imensa de empresas de mineração sul-africanas no Brasil, como a AngloGold Ashanti e a Sibanye Stillwater. Temos na África do Sul empresas brasileiras como a Marcopolo, a WEG, a Seara/Friboi e a Tramontina. Somos também donos da maior cervejaria sul-africana, a SAB Miller, comprada pela AB InBev em 2015.
Cervejinha e futebol, a chave para o sucesso! Um dos principais times de futebol locais é o Mamelodi Sundowns, que se denomina, com orgulho, “The Brazilians”, porque se vestem com cores iguais às da Seleção Brasileira, na qual dizem se inspirar. Falar “sou do Brasil” aqui é sucesso garantido! O dono do time é Patrice Motsepe, um dos homens mais ricos do país, cunhado do Presidente Ramaphosa, e com futuro político que poderia ser promissor.
No BRICS, é interessante notar que Brasil e África do Sul são “like-minded countries”, num nível mais de “soft power”, vis-à-vis nações como Rússia e China, no campo do “hard power”, com a Índia como ator intermediário entre esses dois campos.
No campo multilateral, ainda vale também chamar atenção para o IBAS. Dentre outras iniciativas do IBAS, tem participado do Exercício Naval do grupo, IBSAMAR, cuja última edição foi em 2024, na África do Sul.
Em Defesa, temos um Acordo Quadro de Cooperação, em vigor desde 2003, que por ora não está em vigor pela necessidade de ajustar um ponto à nossa Lei de Acesso à Informação, mas a conversa em Defesa segue promissora. Em 2024, por exemplo, o Comandante do Exército visitou a África do Sul e, em 2025, o Comandante do Exército da África do Sul foi ao Brasil em reciprocidade. Dentre outras iniciativas de sucesso, está um curso de guerra na selva que o Brasil ministrou em 2024, além de vagas para pessoal de defesa sul-africano em instituições militares brasileiras. Nossas indústrias de defesa têm tudo para prosperarem juntas.
E há ainda um leque imenso de campos de cooperação, da agricultura, passando por educação e cultura, por ciência e tecnologia, justiça, meio ambiente, minerais críticos, energia, e combate à fome e à pobreza, dentre tantos outros.
Enfim, estamos, Brasil e África do Sul, umbilicalmente ligados. Separados apenas por um mar. Precisamos nos dar conta disso. Olhar um pouco mais para o Sul. Temos mais de 35 acordos bilaterais em vigor, e a visita do Presidente Ramaphosa engatilhará a assinatura de muitos outros.
A parceria bilateral volta a engatar, e de dentro dessa engrenagem tive o privilégio de injetar muito combustível, desde que me tornei “desk” África do Sul em 2019, em um momento de baixa das relações bilaterais.
De modo que considero esta alta histórica nas relações representada pela visita do Presidente Ramaphosa uma vitória profissional e pessoal também: muito trabalho, muita leitura, muita escrita, e muita saúde mental foram dedicados a esse resultado.
*Todas as informações são de fontes públicas, e o texto não necessariamente reflete a opinião do governo brasileiro.
Joao Bimbato – Escrita, história, geopolítica, saúde mental. Diplomata. Opiniões e textos de responsabilidade do autor.
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